quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Angélica, a Marquesa de Anne e Serge Golon

As histórias da vida de Angélica de Sancé de Morens, nascida em Monteloup, no Poitou, no século XVII, somam 14 volumes lançados no Brasil pelo Círculo do Livro, em capa dura. Também foram lançados pela Nova Cultural, em 1989, dividida em 26 volumes, com papel de jornal, e capas que remetem somente às aventuras românticas de Angélica.
A história de Angélica passa pela França – Monteloup, Toulouse, Paris, Marselha, La Rochelle – e chega ao Canadá, em Quebec. Nesse intervalo, que cobre aproximadamente 30 anos, a heroína passa ainda pelo Mediterrâneo, por Creta e Malta, Argélia e Marrocos.
Os livros, além da pesquisa histórica sobre os lugares e os personagens reais, ainda nos insere no pensamento da época. Luiz XIV, o Rei Sol, e o Iluminismo nascente. As teorias econômicas e filosóficas, os pensadores da época, os grandes nomes e os grandes feitos. Tudo ganha vida, na obra de Anne e Serge Golon.
Angélica, a personagem, é uma mulher que nasceu na baixa nobreza, criada de pés descalços, no conforto de um castelo decadente Andando com os camponeses, sem assumir as distinções de classe, apesar de consciente do tratamento deferente que recebia, sendo filha de um barão da região.
Quando Angélica entra na fase adolescente, seu pai inicia um comércio de mulas (para desgosto dos parentes da alta nobreza, que faziam chacota – o comércio não era atividade nobre, somente a guerra o era) e Angélica e as irmãs são mandadas para um colégio de freiras, em Poitiers, para serem educadas como jovens nobres e se prepararem para o destino comum: casamento.
Angélica sabe disso, e questiona, mesmo sabendo da inevitabilidade de seu destino.
Por sorte (é um romance, né, gente?) ela é “vendida em casamento” a um nobre da região sul da França, da província de Toulouse, o Conde de Peyrac, Joffrey, por quem se apaixona. Doze anos mais velho, ele é um ancião para a adolescente de 18 anos, e ainda é coxo (manca de uma perna), com uma enorme cicatriz no rosto, que o desfigura, e a fama de bruxo e alquimista, mas depois de ser tratada como uma adulta, e mais ainda, como um ser humano inteligente e capaz, pelo marido, Angélica se rende a um amor que é épico… (suspiros)
O Conde Joffrey de Peyrac é um nobre que questiona seu papel como mero coadjuvante nas guerras. Questiona as próprias guerras reais, uma vez que, ainda bebê, foi agredido e ferido por soldados do Rei de então, nas revoltas protestantes. Questiona e usa os conhecimentos que adquiriu sobre metais para fazer a própria fortuna, o que, obviamente, o torna menos dependente dos reis e dos bispos, e assim, uma ameaça.
Joffrey é perseguido, julgado em um arremedo de Inquisição, e sua esposa, aos vinte anos, grávida do segundo filho, o vê sendo, supostamente, queimado vivo em praça pública, para o deleite da multidão.
Angélica se vê renegada pelos antigos bajuladores da época de esplendor, e pela própria família, que teme o mesmo destino. Para sobreviver, vai viver nas ruas de Paris, entre mendigos e assassinos, onde reencontra um antigo servo de seu pai, que se tornou um grande nome entre os desalojados do “Pátio dos Milagres”, local nas antigas muralhas de Paris onde a população miserável se escondia e sobrevivia, à custa dos pequenos milagres – falsos deficientes, que simulavam doenças para angariar esmolas e cometer pequenos furtos contra a nobreza e a crescente burguesia. No “Pátio dos Milagres”, a Condessa de Peyrac se torna “A Marquesa dos Anjos”, nome pelo qual ficará conhecida na série.
Posteriormente, à custa de trabalho, esforço, chantagens, tramoias e muita ousadia e inteligência, nossa heroína vai recuperar seu lugar na Corte. Se casa com um Marquês e será, até mesmo, cotada para ocupar o cargo de amante real; um cargo muito disputado, mas que ela recusa.
Em consequência desta recusa é de novo lançada ao ostracismo e foge para o Mediterrâneo, para aonde vai em busca da verdade sobre o que aconteceu com o primeiro marido, Joffrey. Supostamente queimado vivo esse personagem ressurge numa reviravolta nos fazendo saber que recebeu o perdão real na última hora desde que se mantivesse escondido. Ele consegue fugir e se torna um pirata.
Angélica sofre todo tipo de violência. É estuprada duas vezes no decorrer da história e tem uma filha, fruto de um desses estupros. Perde um filho, assassinado, na mesma noite em que é estuprada por um batalhão de soldados.
Após tal fato, ela se revolta contra o rei e pega em armas, liderando a província do Poitou contra o rei Luiz XIV.  Durante esta revolta, as reflexões de Angélica sobre a guerra, sobre a intolerância religiosa, sobre o papel da mulher, são profundas e angustiantes.
E após ser derrotada, ver seus amigos presos ou mortos, ela consegue, ainda, se disfarçar, e sobreviver com a filha, a quem aprende a amar (a filha do estupro, a filha que ela tentou matar no ventre, e tenta matar ao nascer, abandonando a criança em um convento), como criada de uma família hugenote (protestante), na cidade de La Rochele.
De lá, ela vai para o Canadá…
Bem, eu poderia contar mais, mas vai ficar enorme e não vai chegar nem perto do que é a saga, e ainda vou estragar a surpresa para quem não leu os livros.
Filosofia, religião, história, feminismo.
Sim, é uma história cheia de reviravoltas. E, sim, foi vendida, contra a vontade da autora, como um romance açucarado (não que eu tenha nada contra, muito antes pelo contrário, você pode ver aqui mesmo no Blogueiras Feministas, no meu post “Água com açúcar, sim, por favor!”) e não como o epopéia histórica que na verdade é.
Em português, mesmo com toda a parafernália de internet, não encontrei quase nenhum texto sobre Anne ou sobre a obra mais famosa. Mas em inglês, língua na qual a saga sequer foi inteiramente traduzida, devido à batalha judicial pelos direitos autorais, encontramos vários textos, entre eles, um que diz que “The Angélique series is to historical fiction what the Lord of the Rings is to fantasy – the original, epic work that set the standard and still does.” (A série Angélica é para a ficção histórica o que O Senhor dos Anéis é para a literatura de fantasia: o original, o trabalho épico que estabeleceu o padrão, e ainda estabelece).
Se é exagero, não sei, mas posso afirmar que, como uma adolescente que adorava história, e tinha acesso a enciclopédias e livros que a maioria dos adolescentes não tinha, no ínicio da década de 90, o trabalho de pesquisa histórica é fascinante e enriquecedor.
Com Angélica e sua trajetória pelo mundo e pela vida, eu aprendi mais sobre o mercantilismo e a Reforma Protestante que com qualquer livro de história ou professor de ensino médio. Me despertou a curiosidade sobre outros países, sobre filosofia e arte, sobre as nações indígenas no Canadá, e eu li O Guarani com outros olhos depois de ler as aventuras de Angélica.
Não busco leituras por serem “feministas” ou terem personagens “feministas” – e aos treze anos, quando li “Os amores de Angélica”, eu nem sabia o que era feminismo.
Mas quis falar aqui sobre essa obra, não só pela heroína, nem só pela história da autora Anne Golon, mas porque, se houver um teste Bedchen sobre os livros, A Marquesa dos Anjos passaria com louvor.
Existem vários personagens femininos, fortes, com nomes. Elas conversam entre si. E não falam sobre homens o tempo todo!
Como disse um artigo em um site, em ingles, que busca divulgar a autora e sua obra:
As capas enganosas, frequentemente retratando uma Angélica escassamente vestida em absurdas roupas fora do período histórico descrito, a classificação enganosa dos livros como romance, ou até eróticos, e os filmes, que infelizmente, enquanto apresentavam Angélica a milhões, a colocaram como uma sombra rasa e egoísta de seu verdadeiro caráter, contribuíram para que os livros fossem vistos como literatura inferior, desmerecendo o incrível trabalho de pesquisa e ambientação histórica

Alguém não gosta da vida?

 Blog virou cringe

Na onda do "mds" ou "pvt" ou "lol" parece que escrever muito é démodé. O tempo do ler e escrever foi substituído por  ouvir e assistir. O mundo virtual foi invadido pela vida audiovisual.

Tudo bem. Não sou saudosista.

Mas certas coisas não podem ser escritas em 150 caracteres e sou assumidamente contra a divulgação da minha imagem. Mas isso é um traço de personalidade que nem toda experiência tictociana conseguirá mudar.

Não sou cringe. Sou velha demais pra isso. Tenho quase 50 e poderia ser mãe de um Millenium, na verdade. Mas não sou também. Então, só os compreendo teoricamente ou por amigas ou terapeutas. 

Mas não é sobre isso.

Hoje quis fazer um blog. 

Enquanto penso sobre o blog e o que quero deixar registrado nesse mundo esquisito pra ninguém ler me veio o nome do Blog: ALGUÉM NÃO GOSTA DA VIDA?

Essa frase me faz pensar sobre tanta coisa.

Daria um podcast, mas eu quero mesmo é escrever.

Para ninguém, mas escrever

domingo, 24 de maio de 2020

Notas do Caminho

O nome de um blog que eu tive entre 2007 e 2011 e perdi. Simplesmente. Eu o vejo, mas não o acesso. Não tenho como provar que é meu. Não tenho mais acesso ao endereço que utilizava. Nove anos não parece ser muito para a memória da internet, mas parece ser para a minha. Incrível. Eu tinha três endereço naquele período e não lembro de absolutamente nenhum. Acho que a vida não ia bem e quando ela começou a ficar bem de novo, eu quis apagar a década anterior. Deve ter sido isso. Mas eis que estou de volta querendo essa década de volta, tentando lembrar e apelando para a memória da internet. Enquanto escrevo me veio essa ideia, fazer um "notas aqui". Diferente plataforma, mesmo conteúdo. Ou seja, continuar a espalhar notas pelo meu caminho e, quem sabe, aprender algo com elas um pouco mais à frente. Talvez eu faça isso.

sábado, 21 de julho de 2018

Lá Land... não existia, afinal.

O que La La Land quer nos dizer? Que tudo tem um jeito de tudo dá certo?
Assisti recentemente e sem ter lido nada sobre o filme, me joguei na trilha maravilhosa, nas cores, na fotografia, na atuação.
Um belo filme de sessão da tarde em um sábado à noite.

E não era sobre isso, afinal.
Não era um filme sobre o amor, era um filme sobre o sucesso. Sorte no jogo, azar no amor? O que falar de casais que se anulam  e que para seguirem sucesso precisam se separar?

A verdade é que não prestei muita atenção ao filme até os seus momentos finais quando você descobre que o final feliz não envolve a felicidade de todos os ângulos.
Apesar da clara homenagem aos filmes dos anos de 1950/1960 com um figurino e cores fortes quase como uma animação, não é absolutamente óbvio e nem clichê. E a última cena nos faz pensar exatamente isso: é assim mesmo.

Mas estão todos felizes, todos realizados e mesmo assim não é o tipo de final feliz que tinhamos em mente.
Então, agente saca, como sacou em Frozen ou em Moana (eu tô falando de Disney? É, estou): o mundo não é mais tão simples, por que seriam os filmes.

Os celulares nos lembram no filme que apesar de Mia e Sebastian estarem bailando pela cidade com uma orquestra que sai das nuvens como mágica, eles não estão no mesmo tempo que Gene Kelly e Debbie Reynolds, nem no mesmo contexto. Não há mais Guerra Fria e nem dois lados da moeda. Nem há mais moeda. Há indvíduos em suas individualidades tentando sobreviver.
É disso que se trata sobrevivência. Pura e simplesmente.

O filme todo é a sequencia final. Tudo o que antecede é uma imensa e bela introdução. Pra que se entenda que, afinal, final feliz tem mais de uma dimensão e mais de uma perspectiva e que o jogo pode virar em apenas um beijo.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Um estudante entre estudantes

Essas impressões acontecem enquanto assisto ao filme junto com os meus alunos de Fundamentos da Psicologia Educacional. A atividade é o fechamento de uma discussão de 5 semanas em torno do desenvolvimento humano a partir da perspectiva da Psicologia do Desenvolvimento.
O filme é uma produção... tendo...como protagonista no papel de Chano e ...no papel de... e no papel de ... Um elenco de atores e atrizes tentam retratar o cotidiano de uma universidade na cidade espanhola de...

"Não sei como começou"

E uma linda canção executada por um violisnista nos leva ao "novo lar" de Chano e seus colegas de curso

Aula Magna, inscrição, primeiro dia de aula, grupos de trabalho, atividades extra-curriculares e, claro, festas. Tem aluno relapso, amores, decepções, dramas, alegrias. Tudo isso num universo jovem e adulto próprio do espaço representado.
A velhice aparece em dois contextos: o zelador e O estudante, título do filme. É o filme é sobre Chano e sua aventura na volta aos bancos escolares no universo do ensino superior. O que chama mais atenção no início do filme é a disposição de Chano de se conectar com os alunos mais jovens. Seja na música, na dança, nas atividades de socialização, nas aulas, nas expressões verbais e não-verbais típicas desse grupo de humanos. Mas essa é uma disposição em mão dupla. E isso é bom.
Há várias pequenas tramas se desenvolvendo enquanto vemos o caminho de Chano na busca por sua educação superior.

"Certas coisas não deveriam mudar, como os clássicos que nunca mudam"

Outro destaque importante é que os personagens - jovens, adultos e idosos - são apresentados a partir de várias dimensões de personalidade não caindo num generalismo muito comum quando focamos, em um filme, num lugar específico do desenvolvimento humano. Ainda assim, é na tentativa de evidenciar diferenças há cenas em que esse mundo idílico de "antigamente era melhor" torna-se meio caricato sempre idealizando o velho como sábio e o jovem como aprendiz. Ou como protetor, como na cena em que ele defende a honra da estudante grávida do professor de Literatura ou  como se ocupa de ensiná-losMas não tira o mérito da discussão sobre as relações entre as faixas etárias apresentadas no decorrer do filme.

" As grandes obras estão cheias de sabedoria (cena do café onde eles treinam D. Quixote)

Uma nova dinâmica de saber é apresentada na interação entre jovens e idoso, entre adultos e jovens entre jovens e adultos e entre idosos e idosos. A relação com as crianças é sempre a mesma: curiosidade, alegria, aceitação, imaginação.

" Chano nós viemos aqui por que queremos que vocês nos ajude"

Sabedoria, experiência, conhecimento prévio e, de repente, Chano dirigia os jovens no Palco e na vida

" Façam o favor de colarem as suas máscaras e sejam o que quiserem ser"

Amante apaixonado,  cantor romântico, estudante exemplar, amigo de todas as horas, namorado ousado, namorada recatada. O que quiser. A vida vai dizendo e eles vão respondendo dentro do filme que traz um cotidiano, perceptivelmente, temporal. Idosos em um mundo de jovens. Convivendo. Com amores e dores, como a rosa caída ou o choro solitário nos lembra quem nem sempre é possível colocar a máscara.

E aí, apesar de tudo, tudo muda. Como sempre.

A morte ronda o desenvolvimento humano. É parte doa cordo com a vida. Mas, sem dúvida, ela ronda mais fortemente o universo do idoso e isso é trazido em dois momentos

"Rapazes, vamos tocar como nunca por que, quem sabe, essa é pode ser a última vez"

" Abra a cabeça deles para que não sejam egocêntricos, ensine-os a amar"

Com muitas frases de efeito e bastante moralista  sobre escolhas e modos de vida, ainda assim é um excelente oportunidade para pensar o nosso lugar no mundo enquanto aqui estamos.

O zelador se torna Diretor da peça e o filme só mostra a performance deste e não a do professor. Enquanto Chano ajuda

O filme é sobre como podemos aprender a amar. E um aprendizado a ser ministrado pelos mais velhos aos mais novos e além dos muros de uma educaçaõ superior.

Pessoalmente, não acho que possamos pensar de forma tão definida quem educa quem.
Mas é uma ficção e só funciona aqui como ponto de reflexão sobre esses encontros de gerações que nos dizem que somos uma humanidade em desenvolvimento. Todos aprendendo com todos o tempo todo.

É romântico, é bobo, mas convida à reflexão, Vale assistir e pensar sobre quem sou nessas relações e pra onde vou.



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A caixa

Eu sei o que é. Sei até o que tenho que fazer. Não é fisico, nem mesmo mental. É emocional. Mas não tenho como mudar isso,  nem fazer desaparecer, nem transformar. É como uma caixa muito, muito, muito pesada que não consigo erguer. E eu precisaria erguer para que alguma mudança no meu humor, na minha esperança, na minha perspetiva mudasse. E então você me diz: "alguém pode lhe ajudar a erguer". É, pode. Algumas pessoas já quiseram, mas o problema é que ela é muito, muito, muito pesada e no meio as pessoas pensam "pq vou ficar me esforçando tanto? Tenho minhas próprias caixas pra erguer" E me deixam com a caixa muito, muito, muito pesada. E seu peso me faz derrubar a caixa e eu caio junto com ela. No chão eu penso que o melhor é deixa-la lá mesmo pelo menos se não tentar ergue-la posso ficar de pé, ao lado da caixa muito, muito, muito pesada. Melhor triste do que caída.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Layla e eu

Escrevo do aparador da cozinha enquanto faço o jantar. Uma frase e uma ida ao fogão. Outra frase e uma ida à pia. Mais um e vou me virando entre as duas que me habitam neste fim de tarde chuvoso. Sou nordestina. E hoje encontrei uma israelita. Nos encontramos. Mais eu a ela, do que ela a mim. Mas tanto faz: acho que ela esperava que assim o fosse. Pelo menos, eu escrevo.

Este blog é para mim. Apesar de supostamente ser um blog sobre cinema e literatura, ele não é convencional. Aqui minhas impressões vem do que vejo e leio e, portanto, do que a juventude convencionou chamar de spoiler. Não acredito que alguém vá lê, mas para evitar quaisquer paranoias nesse sentido já vou dizendo: conto aqui começo, meio e fim do filme Tempestade de Areia.

Layla é uma jovem muçulmana habitante de uma vila ao sul de Israel. Mora com sua mãe e as três irmãs. Seu pai nos parece um transgressor: ensina a filha a dirigir, deixa que ela vá à faculdade, permite que as filhas menores usem calças, fiquem na presença de reuniões de homens. Mas o sistema é opressor e, aos poucos pelos olhos de Jalila agente vai percebendo.

Algumas coisas são pura intuição. Numa cultura tão opressora sobre o feminino, uma mulher ter quatro meninas e nenhum menino não deve ser nada bom para a mulher en questão. Por isso, encontramos Sulliman, numa celebração de segundas núpcias com uma mulher mais jovem. Enquanto sua primeira esposa tenta lidar com a situação, com essa espécie de rejeição, é possível vislumbrar o cotidiano dessas mulheres e homens, distantes do glamoroso mundo das dançarinas do ventre que o ocidente aprendeu a endeusar. No universo de Layla não há glamour somente um ciclo permanente de opressão dos homens sobre as mulheres e do sistema sobre todos eles.

Layla se apaixona por um rapaz de outra tribo. Ela acredita que seu pai a apoiará. Afinal, ele não a ensinou a dirigir? Não a deixou ir à faculdade? Sim, ele é transgressor. Layla não vê o que acontece. Não percebe que sua mãe foi rejeitada por não dá um herdeiro ao pai. Que seu pai preferia está com uma só esposa Não percebe que a segunda esposa ficou com seu pai por falta de opção. "Cresce, Layla". Existem aqui modelos geracionais que não podem ser esquecidos, suprimidos ou relevados. Sua mãe é banida por se opor ao casamento arranjado, por questionar seu papel de homem. Mas tudo que ele quer é ficar com ela, é aceitá-la de volta. Mas precisa fazer o que tem que ser feito. Ela ainda tenta a alternativa, mas esta alternativa não dará alternativa a outras quatro pessoas. E eles se amam. Então, Layla casa com um homem da tribo e que seu pai escolheu. E entra no ciclo.

Eles nascem livres - meninos e meninas - mas são subjugados pelo costume e pela tradição religiosa. Não é que não se questione; sim, se questiona. Mas é como não se pudesse fazer nada. É preciso se fazer assim, não há alternativa. Ela até aparece, como uma miragem no deserto, mas quando nos avizinhamos dela...puf! Sumiu.

Neste filme não é o pai que oprime, não é a mãe que tenta fazer permanecer o ciclo, são as novas gerações que sei lá por que (talvez ausência de consciência concreta da realidade dada, como diria Marx) não consegue deixar o ciclo, como no vórtice maluco de um filme hollywoodiano qualquer. E esse nem foi feito em Hollywood ou Bollywood.

Então, o filme acabou. Era quase noite. Desliguei o notebook. Vim pra cozinha e fui pensar o que fazer para o jantar. "É mãe, pelo menos eu escrevo".

quarta-feira, 22 de março de 2017

Uma (s) mulher (es) e tanto 2

Escritores da Liberdade, estrelado por Hillary Swank, em um ano que ainda preciso ver ;), é baseado na história da professora de Lingua Inglesa Erin Gunwell e sua chegada na escola (cujo nome não lembro) em Long Beach. Uma escola que sofre os efeitos de uma reforma que propõe a integração regional como forma de dirimir as diferenças. Algo que já é nos é mostrado no inicio do filme ao sermos apresentados às seçoes com a qual sao divididos os espaços fisicos no patio. E eles não se misturam: latinos, negros, asiaticos. Cada um no seu quadrado. Mas ela acredita na integração e esse esforço dela é aindq maior por ser uma das poucas na escola.

Seu universo de atuação é do pedagógico. Textos mais de acordo com a realidade, forçar a reorganização do mapa de sala, postura e roupas vão sendo modificadas para criar empatia consigo e com a aprendizagem.
Mas o mundo os convida a outras coisas e a vida deles é nas tribos. Como pensar o universo formativo integrador dentro dos limites de um ambiente violento, sectario, corporativista (sim, pq nao?) onde o silêncio é proteção, é arma, é marca de uma população oprimida num sistema meritocrático que desintegra e promove isso. Racismo, intolerância, falta de oportunidade em um salve-se quem puder que de tão cotidiabo soa normal.

"Fechem os livros"

E ela descobre que os limites não são apenas económicos e pedagógicos, são culturais, são sociais. Ela não sabe onde moram, como vivem, quem são. E pra eles, ela não faz sentido, escola não faz sentido

"Por que vc deveria ser respeitada? Por que vc é professora?
"O que vc tem pra mim?"
" O que é Holocausto?"
Eles vivem um holocausto e nem sabem o que é. O choque de culturas é uma chacoalhada na pedagogia da moça. Sua tentativa ainda é pelo conhecimento, mas sem apoio ou crença da escola, ela faz algo que não deve ser exemplo: ela assume as contas da educação desses meninos bancando materiais, passeios, livros.
Mas há uma percepção aqui: é preciso conhece-los, que eles se conheçam a si e também uns aos outros. Faze-los ver quantas semelhanças têm, mais do que suas diferenças étnicas. O jogo da linha é um reconhecimento de si, mas tb do outro. E cria a empatia necessária ao aprendizado e a socializaçao na sala de aula.
E entao os diários.
"Todos tem uma história"

As escritas de si assumem uma proporção inesperada ao irem alem de um movimento em torno do aspecto pedagógico de faze-los treinar a produção escrita. Aparecem como uma projeção de si e mais de si no mundo em que vivem. Permitem repensar valores, se são seus, do seu povo ou do povo do outro lado do bairro,  da rua, do pátio.
E ela e nós vamos sabendo de suas histórias.
Ela promove uma libertação dos efeitos de uma vida socialmente limitada e demarcada pela cor da pele. E isso como prática tem efeitos importantes na vida de cada um e na dela tambem. Por que se tem uma coisa que esse filme nos ensina é em como as escritas de si podem ser um componente formativo dos mais poderosos.
Isso tudo tem um custo, claro. Há perdas no processo. Mas há ganhos. E nessa contabilidade, o ganho da libertação é o melhor custo-benefício.
Como Nise, Erin acreditou numa ideia e correu atrás pra cuidar melhor dos seus alunos, da forma que acreditava ser melhor. O que essa história nos inspira, como em O coraçao da loucura, e saber que pessoas boas existem e que elas continuam a fazer o bem, no matter what. Isso nos dá esperança.

sábado, 18 de março de 2017

Capítulo 1?

Tudo que ela queria era que o tempo passasse e que sua penitência fosse cumprida. E aí, quem sabe, pudesse ser livre. Escolhas erradas se aplicaria se tivesse sido uma escolha. Mas não foi. Nunca foi uma escolha. Uma fatalidade? Não sei se era um nome apropriado. Talvez não existisse um nome ainda. Talvez Camões e Shakespeare. Tudo isso pensava em meio aos gritos e birras do filho de 06 anos para quem todos olhavam naquela sala de laboratório, enquanto três enfermeiros o seguravam para fazer um exame de rotina. Por que crescera tanto? Nota mental: não transar com homens de mais de 1,80. Era pequenina e delgada. Não tinha mais que 1,60 em 53 kgs bem distribuídos em seios pequenos e bumbum arredondado. As carnes no lugar certo, diriam alguns. [...]

quarta-feira, 8 de março de 2017

Quem é Mrs. Dalloway?

O filme As horas, estrelado por três grandes intérpretes remete muito mais à todas a mulheres do que aquela que as inspirou, Virginia Woolf.

Um único dia na vida de uma mulher, e neste dia toda a vida dela

E o filme mostra o dia de três mulheres separadas pelo tempo, pelo lugar e pela cultura. O que as une? O ser mulher, esse ser ainda tão envergonhado, parafraseando Adélia Prado.

Vivem nas suas relações de genero, em suas generalidades tão genericas de um cotidiano que também é nosso.

Pensei que ia ficar melhor que isso.
Porque está tudo dando errado?

Virginia escreve sobre Mrs. Dalloway. Kitty lê Mrs. Dalloway. Clarissa é Mrs. Dalloway, só que me NY e em 2001. Se tornou, na verdade, Mrs. Dalloway. Quem é esta mulher Dalloway, afinal?

Vamos encontrando com ela nas esquinas das narrativas entrelaçadas por um roteiro extremamente bem escrito e convodativo.

Uma mulher só é mulher quando se torna mãe

O bolo deu errado.

E as dores sobre as quais não podemos falar vão eclodindo numa erupção lenta e constante. Sabemos que vai ser destrutiva, mas não conseguimos parar de olhar, como um voyeur sádico e megalómano.

Personagens de si mesmas, o cotidiano delas vai se desenhando ante os olhos do espectador que só espera. Sobreviventes do seu mundo se apoiam e apoiam umas às outras. Às vezes.

Eu ia matar minha heroina, mas mudei de ideia. Agora, terei que matar uma outra pessoa

Mas sabemos que ela mata. Mas o que ela mata? Quem ela mata? No filme, ela se mata. Coisa que sabemos do Wikipedia e das primeiras cenas do filme

É um drama. A trilha diz. O entrelaçamanto diz. As narrativas dizem. A história conta.

Todos os fantasmas vieram para a festa

Ela tem a propria vida e a vida dos livros que escreve

Não era o começo. Era a felicidade. O momento.

Fiz isso por você. Fiz isso par você melhorar. Fiz isso por amor

E quem diabos pediu isso? Pelo menos, Leonard volta pra Londres.

Por um momento achei que ia demorar mais, mas mudei de ideia.

Será? Alguém tem que morrer, segundo Virginia Woolf.

Um filme sobre dor, morte, vida, escolhas e coragem. Mas também sobre medos e covardias.

Mas ainda tenho que enfrentar as horas, não?

Todos temos, Richard, todos temos.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Uma(s) mulher(es) e tanto: parte 1

Nise - O coração da loucura (2016), Escritores da liberdade (2007) e Além da sala de aula (2011). O que têm em comum? São biográficos, são sobre mulheres e são ações contra um sistema excludente, branco e masculino. São anti-patriarcais. Dá pra dizer mais? Sempre dá. Eles têm ainda um traço comum: nos dão esperança. Esperança que existam pessoas boas, esperança que a Luz possa ter algum ganho sobre as Trevas e um lembrete permanente de que estas existem. É isso: essas obras são um lembrete de que estamos cercados, mas que existem pessoas boas que não esmorecem diante de tantas pessoas ruins e que nos inspiram, a nós, esses, como eu, que não são nem da Luz e nem das Trevas que não têm a força para optar por um lado e ficam só na torcida para que um deles vença. eu sou da torcida da Luz. Pelo menos isso, eu ainda consigo







Nise - O coração da loucura foi um filme dirigido por Roberto Berliner no Brasil em 2016. Teve como intérprete da psiquiatra Nise da Silveira a atriz Glória Pires. Uma atuação bem morna, a meu ver, mas não é disso que se trata esse post mas de como esse filme ao homenagear essa grande mulher nos inspira a sermos grandes também. O filme começa no retorno da Dra. Nise ao Hospital Nacional psiquiátrico em Engenho de Dentro - RJ, no ano de 1944. A cena de abertura foi extremamente bem escolhida pois simboliza essa luta que ele teve de abrir a cabeça desse universo médico machista e retrógrado que tentou romper. Mas a porta se abre, finalmente, e o filme começa a nos mostrar os horrores do tratamento para doentes mentais até a primeira metade do século XX

"O meu instrumento é o pincel, o seu é o picador de gelo"

Os personagens desse drama real vão nos sendo apresentados em sua forma mais crua enquanto a Dra. Nise adentra o edifício do hospital. Esquizofrênicos, diagnosticados como "doentes crônicos incuráveis" objetos de experimentos sádicos de médicos ignorantes que só queriam "curar" sem se perguntar, sem perguntar, sem cuidar.

"Pacientes precisamos ser nós, eles são clientes"

Arte-terapia surge dessa inclinação quase natural para a parceria e no lugar de "doentes crônicos" o mundo os reconhece como "grandes artistas brasileiros", na fala do personagem Mário Pedrosa.

"Ele começa com essas pinceladas curtas e depois ela vai ganhando o quadro todo. Ele as chamou de pixel"

Criavam arte ao mesmo tempo em que davam lógica a seu pensamento analógico e desordenado. Se curavam sem erradicar nem afeto, nem emoção, nem a própria doença. Conviviam. E os maus? Estavam lá. Torcendo para que desse errado, boicotando através do sistema, assassinando ideias, ações e motivações. Tentando quebrar a confiança, a esperança, a motivação dessas pessoas especiais. Especiais por serem mulheres, por serem maternas, por serem cuidadoras.



Violência das gangs e tensão racial em Long Island, em New York State é o cenário de onde vai surgir outra grande mulher. Mas isso é papo pra outro post, pra outra hora, pra outra conversa. Uma conversa de mulheres sobre mulheres para pessoas que se dedicam á simplesmente ser Luz. 

Resultado de imagem para nise o coração da loucura


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

No boteco

-Posso sentar com você? Claro, senta aí. Essa foi a primeira e ultima vez que se falaram. É um mundo estranho (ou não), mas é o nosso mundo e nunca o tal do "aceita que dói menos" foi mais real pra mim. Enquanto o rapaz sentava, sacava o celular e comia enquanto os olhos só seguiam o que ia na tela, me pus a especular sobre o que conversariamos se a opçao dele fosse mesmo a de sentar com o outro à sua frente e não ao lado do outro na mesma mesa. Piaget chamaria de egocentrismo não trabalahado, eu chamo de desperdicio da existencia, haverá quem chame "normal".

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Money never in Wall Street

Continuando seguindo o rastro de dinheiro desde a Wall Street de Leonardo di Caprio, vamos nos encontrar na mesma rua com... em uma história que busca vingança e redençao ao mesmo tempp

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Wall Street na Netflix

Entender como funciona essa versão contemporânea de um burgo medieval é tão estimulante como os próprios filmes que o representa. São filmes que nos aproxima de uma realidade tão virtual que quase esquecemos que ela é bem concreta e comanda a nossa vida, ou o nosso lifestyle. Uma rua, uma avenida no mundo todo que concentra as riquezas do reinado enquanto olham pra cima se perguntando como fazer para ir ao outro lado do muro é por si só um personagem. Vamos passear por três obras cinematográfica que utilizam essa rua como cenário, titulo, protagonista para buscar uma compreensão sobre quais tipos de pessoas brilham nos burgos enquanto sonham em entrar na corte e tomar o lugar do Rei
O lobo de Wall Street, estrelado por Leonardo di Caprio em e dirigido por é um desses.  A natureza primeira é sempre evocada para nos lembrar ou nos permitir uma desculpa de que os que nos impele é uma certa sobrevivência animal. O lobo do titulo, se junta na primeira imagem de um leão que metaforiza essa selva financeira que é o mercado mundial de capital.
O filme traz o universo competitivo do mundo dos investimentos a partir de uma financeira e de seus corretores. Um, em particular. Seu dono. Jordan. Ele conversa com seu espectador e lhe apresenta em 4 minutos 49 segundos por quê é  tão bom ser rico. Quanta droga, bens móveis e imoveis, mulheres e até causas sociais, culturais, politicas e ambientais você pode ter apenas possuindo uma coisa: dinheiro. Bem, as outras horas minutos ele passa nos mostrando como conseguiu isso indo ao lugar no final do arco-iris: Wall Street. Mas tudo isso serve para manter o parque funcionando, para manter os clientes, aumentar as comissoes que é, afinal, o modo do corretor ficar rico. O corretor, não o cliente. Ao cliente, sobra a ilusão da riqueza. E um sistema e tanto, não? O perfil é de um drogado, sociopata e mentiroso, mas divertido, fanfarrão e, claro, rico. São loucos e precisam ser. Mas isso é Wall Street. O que Jordan nos faz conhecer é Long Sland. E ele brilha! 72 mil dólares em 01 mês vendendo "lixo para lixeirios" em ações de centavos de dólares. E ele começa a ter seguidores. E eles eram improváveis! Mas vendiam qualquer coisa a qualquer um. E esse era um bom time para começar uma empresa de investimento financeiro. E a empresa cresce e eles ficam ricos. O cara tem o dom de iludir e ensinar a iludir. Mas o que fazer quando você tem todo o dinheiro que nunca nem conseguirá gastar e nenhum escrúpulo? Was heaven in earth. Até que essa expulsão acontece. Viciado em drogas, viciado em sexo, viciado na adrenalina e no estilo de vida, ele é simplesmente colocado pra fora desse mundo. Um lobo velho vivendo numa reserva florestal? No way! Odiado por muitos, amado pelos seus, sem aceitar um "não" como resposta. O lobo só sai da selva morto ou, pelo menos ferido. E o abatem. E enjaulam. Não só seu corpo, mas sua alma. Quer ser rico? Aprenda a vender
O trabalho do Diretor com as sequências rapidas e os slowmotion torna-o um filme divertido, bem feito e até certo ponto didático. As passagens do tempo e a conexão é fabulosa. O fime começa na metade. Isso torna tudo mais interesante a quem assiste Pois se nunca pensei em corretagem e investimento na vida, isso saiu completamente do cardápio a partir desse filme

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

CRIMES DE DAVID FINCHER

Mais um de DF para minha lista de "Uau!".  Sinto que encontrei meu Diretor de Cinema favorito.

"Se7en"(1995) tem uma história simples, de baixo impacto de ação e trazendo os elementos clássicos de um filme policial dos anos 1990. Dois policiais, um mais velho a sete dias de se aposentar, e outro mais jovem, iniciando como detetive se deparam com um serial killer que utiliza os sete pecados capitais como metáfora para seus crimes. Por quê essa escolha psicológica é o que nos leva a assistir e nos torna investigadores desse policial com Morgan Freeman e Brad Pitt protagonizando o filme.


E a caçada começa!
Mais uma vez o tipo humano é o que atrai Fincher, aquele psicopata em potência que existe em todos nós.

O método de trabalho também faz parte desse conflito tão humano que e a diferença de gerações. Ressaltando que um veio para ficar no lugar do outro e o mais velho é esse que vai cuidar da transição do jovem. Um clássico durkheimiano da geração mais velha educando a jovem, enquanto esta se rebela quanto aos seus métodos, ao mesmo tempo que não pode deixar de levar em consideração simplesmente por que funciona! Um curioso conflito humano dentro de um filme policial que só nos remete a refletir sobre a particularidade desse Diretor.
Um pedido de ajuda do criminoso nos leva a outro nível. Empatia é o que DF nos convida agora. Mas ajuda pra quê? Um universo de perguntas e a atuação desses hoje consagrados atores mantem o foco na pessoa por trás dos crimes. Mas a ajuda não era para o criminoso, era pra vítima. O que nos leva à um nível de horror ante a capacidade humana para transgredir.

"Garimpando diamantes em uma  ilha deserta. Guardando-os para o caso de sermos resgatados"

E aí a monstruosidade de uma inteligência a serviço do mal aparece. E você literalmente pula da cadeira. Mas inteligência se combate com inteligência. E nessa hora percebemos um outro conflito: razão e emoção. E se não forem conflito? E se forem a união de forças antagônicas criando espaço para um universo organizado, mas não ordenado?

Um ótimo filme para pensarmos os humanos e suas possibilidades de (des)humanidades. Um ótimo filme.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

FILME EXEMPLAR: GONE GIRL

Uau! É o que dizemos ao terminar esse filme. A primeira hora do filme parece mais do mesmo. Você já viu, conhece a história, até viu num jornal ou ouviu da amiga. Mas, então, tudo muda. E você passa a olhar a vizinhança sob outra perspectiva. Quem é o sociopata dessa história? Quem é o criminoso? Essa é a perguntas difícil de responder.


Gone Girl, no Brasil Garota Exemplar é a história de Amy e Nick. Que nomes mais americanos, não? A marca de David Finch está lá nos fazendo pensar sobre o que escondemos por trás de olhares, estilos de vida, escolhas de decoração. Toda essa perfeição burguesa para a qual nos empurram dizendo que normal é bom, que sensatez é casa de pé direito alto, filhos no curso de inglês e SUV na garagem. Gosto do estilo desse diretor. Essa ideia de "somos todos culpados" é bastante atual. Sem mocinhos, sem bandidos. Homens e mulheres tentando atravessar essa odisseia vivos.
Finch nos coloca dentro da casa do vizinho e nos leva a refletir sobre nossa própria historia de classe média medíocre.
Amy é uma mulher culta, linda e gentil que inspirou as histórias infantis Amazing Amy, escrita e ilustrada por seus pais. Ela conhece Nick e faz dele seu projeto pessoal de homem ideal. Mas Nick não é nem de longe o cara descolado, brilhante e charmoso que ele quer ser, que ela deseja e que eles tentam fazer parecer. Entre jogos românticos e perigosos, eles chegam no campo da mediocridade ao qual se encaminham um casal em quando perdem a admiração um pelo outro.
O jogo não tem mais graça e é preciso passar para o lado mais dark da relação.
Parceiros no crime, eles encontram um modo de permanecer no jogo. Qual crime? O de ser o perfeito casas burguês.

domingo, 28 de agosto de 2016

VIDAS EM JOGO NUM FILME

Um clássico tem esse nome por suas razões. Ele sempre tem o que nos dizer, é atual independente de seu tempo histórico, nos identificamos com ele independente de credo, posição política ou estilo de vida. Somos transportados e nos sentimos convidados à apreciação artística.

"The game" é uma resposta à ricos entediados com suas vidas endinheiradas. E começa como todo jogo: um convite e algumas regras. Mas mais importante é a própria regra estabelecida no filme pelos vendedores do serviço: você pode sair quando quiser. Isso gera certo conforto ao jogador. Diferente da vida real, a vida no jogo é uma opção.  As ações são entretenimento e tudo é, para dizer o mínimo, intrigante.

Para um lobo de Wall Street, intrigante é uma palavra extremamente motivadora. Por isso, a escolha do lugar social do personagem de Michael Douglas é importante para que a trama seja tão significativa. Uma história pessoal que envolve controle, egocentrismo, individualismo e sucesso deixa entrever que "entrega" a esse tipo de jogo não é exatamente algo que possamos esperar dessa persona.

Mas o convite é feito por alguém próximo, a partir de um jogo de palavras literárias, no dia de seu aniversário como uma surpresa à alguém que não gosta de ser surpreendido.



Temos ingredientes fanstásticos! Temos um filme fantástico?

Bem...aí depende...se você gosta de jogos. Eu considerei um suspense psicológico. Você espera que alguém vá morrer a cada cena e ele não surpreende apenas a Nicholas Van Orten, ele surpreende você. Em como os personagens vão entrando, em como a história vai adensando, em como a narrativa vai se desenvolvendo.

Eu gostei.

E tem a marca autoral de David Fincher. Só isso já vale.

Go for!

Vidas em Jogo (The Game) - 1997. Dirigido por David Fincher. Escrito por John D. Brancato e Michael Ferris. Música Original de Howard Shore. Direção de Fotografia de Harris Savides. Produzido por Ceán Chaffin e Steve Golin. Polygram Filmed Entertainment / USA.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

RENASCIMENTO EM JOGO NO NETFLIX

Rebirth é um filme original Netflix que não alcançou as estrelinhas almejadas. Como isso não é resenha crítica nenhuma, mas apenas impressões de uma espectadora ocasional, é possível que eu não me importe de spoilers ao longo do texto. Mas também não acho que meu leitor deveria se importar. Desde quando conhecimento é motivo para desmotivação? Todos sabem que Romeu e Julieta morrem no final e agente não deixa de ler por causa disso, não?


O enredo é simples e já vimos em filmes do tipo antes, como Vidas em Jogo (1997) e Clube da Luta (1999). Kyle (Fran Kanz) vive um americano mediano, casado e com uma filha. Ele é gerente de mídias sociais (God! Eu nem sabia que isso podia ser um emprego de verdade) de um banco e sua vida é obviamente mais do mesmo, todos os dias. Mas ele parece bem. Ele não nos parece aborrecido, frustrado, triste, entediado. Tais características aparecem (se bem me lembro) nos personagens que protagonizam os filmes que citei antes.
O início do filme vai mostrando em cenas sequenciais esse cotidiano simplório de Kyle, dia após dia, semana após semana. E é quando entra em cena o amigo "malucão" da faculdade o convidando a viver uma experiência espiritual que irá mudar a sua vida. O "Rebirth"Ele fica reticente, mas curioso e acaba topando.
Então, começa uma sucessão de bizarrices que, vamos dá à mão à palmatória, nos leva numa montanha russa que te fazem até pensar que está à frente de um obra-prima. Ou seja, o filme tem ritmo. Não o achei tedioso, mas o achei chato. Como pode isso? Nem eu sei. Mas acho que essa é toda a questão posta no filme.
Veja: o que o amigo de Kyle propõe é libertá-lo da Vida Zumbi que ele leva e nem sabe, é faze-lo sair dessa Dança Zumbi que fazemos todos nós pequenos-burgueses enjaulados. Mas no final é mais do mesmo.
Uma das regras dessa espécie de culto é que você pode sair a hora que você quiser, mas quando ele pede pra sair (e eles "deixam"!) o que você ver é uma pessoa acuada em sua própria casa, chantageado pelas coisas que fez nesse curto espaço de tempo (sim, pq nos dá a impressão de que ele não ficou lá nem até a hora do almoço) e recrutado à usar sua expertise em mídias sociais para atingir mais pessoas. Pessoas para quem a experiência Rebirth com todas as suas frases e gritos de guerra autoajuda podem até se beneficiar. Mas não Kyle e não certamente os amigos dele que estão nessa por dinheiro, numa vida tão Zumbi quanto a outra que levavam.
"Troque sua Vida Zumbi pela nossa Vida Zumbi" deveria ser o slogan. Mas pode nem ser isso por que o filme não traz nenhuma conclusão antes do seu epílogo. O filme tem epílogo, mas não tem fechamento. Pode ser um limite meu, ignorância visual, acadêmica, sei lá. Mas três coisas ficaram para mim ao assistir esse filme: é só mais do mesmo, não é um suspense psicológico e me deu uma puta vontade de assistir Vidas em Jogo novamente. Talvez esse seja o único mérito deste filme na tarde de hoje.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

ALÉM DA VIDA SOMOS APENAS PASSAGEIROS

Também a morte de único homem me diminui, por que eu pertenço à humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti. (John Donne, Meditações XVII, 1624)

A morte de alguém nos lembra de nossa própria mortalidade. O funeral de alguém nos convida a refletir sobre o nosso tempo da Terra. A dor daqueles que amam aquele que foi nos convida a pensar no que existe (e se existe!) para além do mundo que conhecemos.
Cinco filmes para lembrar, refletir e pensar nesta mortalidade que é tão minha como de qualquer um de vocês: O mistério da libélula (Dragonfly, 2002), Premonições (Premonitions, 2007), Passageiros (Passengers, 2009), Um olhar do paraíso (Lovely Bones, 2010), Além da vida ( Here After, 2011).

Tem muita coisa sobre eles pela web: direção, personagens, atores e atrizes, locações, sinopse, críticas. Não é sobre o que vou escrever. Vou escrever o que ficou do que vi, o que me fez sentir, pensar, refletir. É, também aqui, um convite e uma pergunta: quando nada mais restar, o que restará?



sábado, 10 de outubro de 2015

O TERCEIRO SEGREDO DE STEVE BERRY

Isso não é uma resenha. Dito isto, quero escrever minhas impressões sobre O terceiro segredo, livro de Steve Berry publicado pela Record no Brasil em 2005. O terceiro livro de Steve Berry traz as polêmicas que envolvem as aparições de Maria, mãe de Jesus, em suas aparições pelo mundo na medida em que mostra as intrincadas relações de poder que envolvem a comunidade clerical do Vaticano, particularmente àquelas ligadas a seu líder religioso.



A trama parte de uma hipótese, polêmica, de que o terceiro segredo não foi completamente revelado. Utilizando como cenário o fictício papado de Clemente XV, sucessor de João Paulo II, alguns documentos confidenciais são consultados noite a pós noite pelo o Santo Papa. O que Jacob Volkner tanto examina na exclusivíssima Biblioteca do Vaticano?

Certos documentos dessa Biblioteca só podem ser acessados pelos Papas. Entre eles, o terceiro segredo de Fátima revelado a menina Lúcia em 1917 e só revelado à público através de um escrito traduzido do português para o italiano em revelado ao público em 2000 por João Paulo II. Muito se especula sobre a mensagem real que a Virgem teria dito a Lúcia naquele outubro de 1917. E Berry se sustenta nessa deixa para nos entreter com uma história instigante e bem escrita como um bom thriller policial, em meio ao suicídio de um Papa, um Conclave e um desfecho emocionante em torno dos envolvidos. Uma história que a mídia e o povo nunca vai saber, nem mesmo seus príncipes escarlates terão a mínima ideia.


Um amor proibido entre uma jornalista e um padre católico, secretário do Papa, assim como um Celebrity Priest e um Cardeal que faz tudo, inclusive matar, pelo poder de comandar esta igreja empresta uma dinâmica que te faz não querer largar o livro. Como uma novela, envolve o leitor em várias histórias fazendo nos fazendo pensar nas relações entre religião e política na escala do poder mundial.

Ao longo do livro vamos retirando a batina desses padres e vendo-os como os homens que são. Homens que desejam fama, poder, sexo, amor, família e atender ao que acreditam ser o chamado de Deus para eles na Terra. Colin quer o direito de amar sem  restrições à mulher que escolheu sem ter que optar por seu trabalho como clérigo ou essa felicidade terrena, algo que o próprio Jakob desejou e não pôde ter, arrastando consigo um amor puro por toda a vida da mulher que o amava. 

O padre Kealy buscava a fama ao mesmo tempo em que questionava o que deveria ser para ele inquestionável enquanto o Cardeal Valendrea queria trazer o apogeu católico da idade média para o mundo atual como forma de parar o avanço do mundo moderno sob o trabalho de Deus. Incluir um padre que mais parecia um agente Iluminatti como secretário deste foi um toque macabro em um ambiente já tão carregado protagonizado por este Cardeal. Então, temos um padre correto, vigoroso que ajuda criancinhas e quer seguir os planos de Deus, planos que atrapalham os homens. E então são muitas mortes, suspense, corridas pela Europa e muita, muita ação.

O terceiro segredo nunca será revelado por completo, nem tanto pelo segredo em si, mas por demonstrar o quanto os céus estão descontentes com os rumos que o povo daqui de baixo anda dando à sua própria obra. Mas Berry o revela para nós, seus leitores, e que linda mensagem de diversidade e tolerância ele criou para nós! Independente de ser a verdadeira mensagem dos céus, serve para que os religiosos do mundo inteiro possam pensar que uma atualização do pensamento religioso precisa alcançar mais pessoas e, desse modo, melhorar o mundo para todos.