quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A VIDA DE ADELE OU "AZUL É A COR MAIS QUENTE"

La vie d'adele que assumiu no Brasil o título do mercado norte-americano Blue is the warmest color e do quadrinho que deu origem ao roteiro (Azul é a cor mais quente) é um produção francesa de 2013 que se destaca pelas cenas intensas. Todas elas: de choros, de sexo, de risos, de comida, de dança. Tudo é absolutamente intenso. a trilha sonora é massa, a fotografia é belíssima e a sonoplastia de uma poeticidade que me fez esquecer que, afinal, era só um filme. Ouvir a respiração Adèle Exarchopoulos, a belíssima atriz que dá vida á personagem Adele, é um convite à nossa própria sensualidade.



É isso: o filme é sensual. Nem entendi por que essa opção americana por mudar tão radicalmente um título já tão bom. Afinal, o filme é isso mesmo: a vida dessa menina se tornando mulher enquanto descobre a sexualidade, o amor e a relação cotidiana. O filme conta a história de Adéle e Emma e sua constituição como casal. Quando Emma encontra Adéle, ela é uma menina de 15 anos fazendo escola secundária como uma menina parisiense de sua época.


Tive dificuldade de escrever sobre este filme por que ele tem muito bons diálogos e momentos para se refletir. O filme é contextualizado trazendo as passeatas dos jovens por empregos e melhores condições par aos imigrantes em close-ups que nos deixam perceber a meninice de Adéle em meio às suas emoções afloradas pela incerteza do futuro no interior de uma família pequeno burguesa. Suas interações com o sexo oposto e a indefinição quanto a gostos sexuais vão sendo apresentadas ao público como prévia das tórridas cenas protagonizadas com Emma pela total apatia diante de tudo. Mas acima de tudo, traz essa mulher tão cotidiana e tão nós apenas tentando viver sua vida emocional e material como e possível. Um modo de vida absolutamente contemporâneo.

O olhar de Adéle é curioso e, apesar, de um modo simples e prático de encarar a vida essa é uma característica da personagem nas 3 horas que dura a produção. É uma vida que se conta e não pode ser nem exibida, nem assistida de forma aligeirada. As cenas são bem intensas e a direção de Abdellatif Keniche não deixa nada nas entrelinhas; tudo é dito, tudo é feito, tudo é visto, tudo é ouvido.

Após seu encontro com “a moça de cabelo azul Emma” (Lea Seydoux), estudante de Belas Artes, o relacionamento delas evolui, assim como as aspirações de cada uma. A opção de ser professora de Adéle parece incomodar as pessoas do círculo de amigos de Adéle e essa diferença é dada pelo diretor a opor duas cenas de dois jantares envolvendo as famílias de ambas. Fica claro para o espectador que a formação e as expectativas de uma e de outra vêm especificamente da família que as gerou.

Claro que tais diferenças iriam cedo ou tarde iam influenciar os caminhos dessa relação. Adéle nem se interessa por entender o universo de Emma! Vemos Adéle participando do universo de Emma, mas o inverso não acontece. E talvez por uma decisão da própria Adéle que não assume publicamente sua relação homoafetiva em todo o tempo da narrativa.

Adéle parece desconfortável o tempo todo, ainda que seu texto seja d euma moça centrada, antenada com o que vai ao acorrente, sem preconceitos e focada, seu desconforto tá num certo olhar e num timidez exacerbada, particularmente em meio aqueles artistas e intelectuais que são o mundo de sua companheira. A câmera capta bem essa personalidade confusa. O olhar triste é sua marca.

Tudo é feito com muita vontade. Eles comem mesmo, dançam mesmo, riem mesmo, choram mesmo e transam mesmo! Mas é tão cotidiano que temos que nos lembrar que é ficção. O visual despojado dos atores contribui para isso. Gosto do cabelo sempre despenteado de Adéle e mais ainda quando evolui para algo mais comportado, como o de uma “mulher séria”. O visual de Emma também evolui e sai do azul contestador para o loiro trivial. Tudo se assenta na vida cotidiana e como esse passar do tempo nos faz mergulhar num cero modo de ser e de viver.

E aí acontece. A solidão ou sentimento de pertença faz Adéle sair com um colega professor. Mais uma vez as cenas sensuais nos permitem um comparativo e mesmo que nós e Adéle saiba que a escolha dela já estava feita desde os 15 anos, Emma não perdoa a traição, a põe para fora de casa e termina a relação.

As próximas cenas são um convite a cuidar bem do seu amor por que a vida de Adéle passa a ser apenas mecânica do trabalho. Uma cena emblemática é o choro convulsivo no último dia das aulas: nem esse bálsamo para suas horas de solidão ela teria.


Há, então, um reencontro. Algo que o Diretor nos dá para ficarmos para além da vida de Adéle. Emma conseguiu expor na galeria que ela queria, do modo como queria e está com outro alguém. Não há final feliz aqui. Nem sei se há final, afinal. O que há é apenas La vie d’adele e de todos nós.

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