La vie d'adele que assumiu no Brasil o título do mercado
norte-americano Blue is the
warmest color e do quadrinho que deu origem ao roteiro (Azul é a
cor mais quente) é um produção francesa de 2013 que se destaca pelas cenas
intensas. Todas elas: de choros, de sexo, de risos, de comida, de dança. Tudo é
absolutamente intenso. a trilha sonora é massa, a fotografia é belíssima e a
sonoplastia de uma poeticidade que me fez esquecer que, afinal, era só um filme.
Ouvir a respiração Adèle Exarchopoulos, a
belíssima atriz que dá vida á personagem Adele, é um convite à nossa própria
sensualidade.
É isso: o filme é sensual. Nem entendi por que essa
opção americana por mudar tão radicalmente um título já tão bom. Afinal, o
filme é isso mesmo: a vida dessa menina se tornando mulher enquanto descobre a
sexualidade, o amor e a relação cotidiana. O filme conta a história de Adéle e
Emma e sua constituição como casal. Quando Emma encontra Adéle, ela é uma
menina de 15 anos fazendo escola secundária como uma menina parisiense de sua época.
Tive dificuldade de escrever sobre este filme por que
ele tem muito bons diálogos e momentos para se refletir. O filme é
contextualizado trazendo as passeatas dos jovens por empregos e melhores
condições par aos imigrantes em close-ups que nos deixam perceber a meninice de
Adéle em meio às suas emoções afloradas pela incerteza do futuro no interior de
uma família pequeno burguesa. Suas interações com o sexo oposto e a indefinição
quanto a gostos sexuais vão sendo apresentadas ao público como prévia das
tórridas cenas protagonizadas com Emma pela total apatia diante de tudo. Mas
acima de tudo, traz essa mulher tão cotidiana e tão nós apenas tentando viver
sua vida emocional e material como e possível. Um modo de vida absolutamente
contemporâneo.
O olhar de Adéle é curioso e, apesar, de um modo
simples e prático de encarar a vida essa é uma característica da personagem nas
3 horas que dura a produção. É uma vida que se conta e não pode ser nem
exibida, nem assistida de forma aligeirada. As cenas são bem intensas e a
direção de Abdellatif Keniche não deixa nada nas entrelinhas; tudo é dito, tudo
é feito, tudo é visto, tudo é ouvido.
Após seu encontro com “a moça de cabelo azul Emma”
(Lea Seydoux), estudante de Belas Artes, o relacionamento delas evolui, assim
como as aspirações de cada uma. A opção de ser professora de Adéle parece
incomodar as pessoas do círculo de amigos de Adéle e essa diferença é dada pelo
diretor a opor duas cenas de dois jantares envolvendo as famílias de ambas. Fica
claro para o espectador que a formação e as expectativas de uma e de outra vêm
especificamente da família que as gerou.
Claro que tais diferenças iriam cedo ou tarde iam influenciar
os caminhos dessa relação. Adéle nem se interessa por entender o universo de
Emma! Vemos Adéle participando do universo de Emma, mas o inverso não acontece.
E talvez por uma decisão da própria Adéle que não assume publicamente sua
relação homoafetiva em todo o tempo da narrativa.
Adéle parece desconfortável o tempo todo, ainda que
seu texto seja d euma moça centrada, antenada com o que vai ao acorrente, sem preconceitos
e focada, seu desconforto tá num certo olhar e num timidez exacerbada, particularmente
em meio aqueles artistas e intelectuais que são o mundo de sua companheira. A câmera
capta bem essa personalidade confusa. O olhar triste é sua marca.
Tudo é feito com muita vontade. Eles comem mesmo,
dançam mesmo, riem mesmo, choram mesmo e transam mesmo! Mas é tão cotidiano que
temos que nos lembrar que é ficção. O visual despojado dos atores contribui
para isso. Gosto do cabelo sempre despenteado de Adéle e mais ainda quando
evolui para algo mais comportado, como o de uma “mulher séria”. O visual de
Emma também evolui e sai do azul contestador para o loiro trivial. Tudo se
assenta na vida cotidiana e como esse passar do tempo nos faz mergulhar num
cero modo de ser e de viver.
E aí acontece. A solidão ou sentimento de pertença faz
Adéle sair com um colega professor. Mais uma vez as cenas sensuais nos permitem
um comparativo e mesmo que nós e Adéle saiba que a escolha dela já estava feita
desde os 15 anos, Emma não perdoa a traição, a põe para fora de casa e termina
a relação.
As próximas cenas são um convite a cuidar bem do seu
amor por que a vida de Adéle passa a ser apenas mecânica do trabalho. Uma cena
emblemática é o choro convulsivo no último dia das aulas: nem esse bálsamo para
suas horas de solidão ela teria.
Há, então, um reencontro. Algo que o Diretor nos dá
para ficarmos para além da vida de Adéle. Emma conseguiu expor na galeria que
ela queria, do modo como queria e está com outro alguém. Não há final feliz
aqui. Nem sei se há final, afinal. O que há é apenas La vie d’adele e de todos nós.

Nenhum comentário:
Postar um comentário