Um livro me anima ou me desanima a ver sua
tradução fílmica. Um filme me anima ou me desanima a ler o livro que o
originou. É uma ação consciente. Mas nem sempre foi. Não conhecia A
sereiazinha, de Andersen antes de assistir A pequena sereia, da Disney. A
animação me animou a buscar o conto. Fiquei triste com o final inusitado do
conto: esperava o mesmo “felizes para sempre” da animação. Eu tinha 12 anos e
foi então que percebi que não eram apenas formato e linguagens diferentes, eram
histórias diferentes. Quando o conto não tinha felizes para sempre, a Disney se
encarregava de o colocar lá? E como fica a autoria quando o texto já é de
domínio público? Pode-se fazer o que quiser?
Da
minha adolescência para cá foram muitos livros e muitos filmes. Muitas
histórias que chegam algumas vezes pelo livro e outras pelo filme, mas o hábito
nunca mudou: se assisto uma tradução fílmica desperta meu interesse em conhecer
a versão do livro, se lido um livro, ele se torna filme, assistirei a esta
tradução. É quase um ritual. Muitas vezes é só pra ver outra história diferente
daquela uma que eu conheci; quase como uma versão alternativa. Afinal, a
esperança de um final feliz par ao clássico shakespeariano nunca morreu em mim
(por que ele tinha que tomar aquele veneno, jovem sem paciência). Somente o interesse despertado pelas cenas de
Demi Moore em A letra escarlate é o suficiente para fazer o leitor regular
buscar a obra Hawthorne? Mas até que ponto esta relação pode ajudar no
entendimento de uma obra ou, em contrário, complicá-la mais ainda?
Este
ensaio se organiza em três partes. Na primeira delas, uma resenha do livro de
Jane Austen e uma análise de contexto será oferecido ao leitor com o intuito de
reconhecer a história e sua autoria original. Num segundo momento traremos a
sinopse do filme e reflexões teóricas sobre a relação entre cinema e
literatura, incluindo outras relações filmo-literária buscando um diálogo
teórico sobre o tema em foco. Na última parte nos permitiremos refletir sobre a
questão posta no início deste post em uma análise relacional entre as duas
obras Mansfield Park, publicada em 1814 e Mansfield Park, dirigida em 1999.
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